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Quando decidi fechar uma porta do consultório

Sair do presencial não foi só uma mudança de formato — foi encarar o medo de decepcionar pessoas e, ainda assim, escolher o que fazia sentido para mim.

Quando decidi fechar uma porta do consultório

Uma das decisões difíceis que já tomei foi sair do atendimento presencial e passar a atender apenas no formato online. Na época, isso não parecia uma decisão simples.

Eu pensava muito sobre tudo que o atendimento presencial exigia: deslocamento, gasto com transporte — gasolina, Uber, mototáxi — além de toda a organização do espaço. O presencial também exigia cuidado com o ambiente: limpeza, organização, recepção das pessoas, privacidade do consultório, atenção para que quem estivesse na sala de espera não escutasse o atendimento que estava acontecendo. Tudo isso demandava energia.

E havia outra situação que me incomodava um pouco: quando um paciente faltava. Pelo contrato, quando alguém faltava eu ainda recebia pela sessão. Mas eu já estava lá. Eu precisava permanecer naquele espaço, esperando o próximo atendimento, sem poder simplesmente voltar para casa ou usar aquele tempo de outra forma. No online era diferente. Quando alguém faltava, eu podia usar aquele tempo para algo que eu quisesse: descansar, estudar, resolver alguma coisa pessoal.

Mesmo assim, a decisão de deixar o presencial não foi fácil. Eu pensava: “Será que vou ser menos procurada se atender apenas online?”. Existia também uma ideia social muito forte na minha cabeça: a de que psicólogo “de verdade” atende presencialmente.

Mas havia algo curioso acontecendo. Na prática, o online sempre foi mais procurado. Foi ali que muitos dos meus pacientes começaram. Foi ali que o trabalho cresceu.

O online abriu possibilidades que o presencial não tinha. Passei a atender pessoas de lugares diferentes, com histórias e contextos diversos. Enquanto no presencial parecia que eu atendia pessoas muito parecidas entre si, dentro de um mesmo contexto social.

Ainda assim, o dilema permaneceu por um tempo. Eu tinha pacientes presenciais que eram incríveis. E eu me perguntava se estava pronta para deixar aquilo. Com o tempo percebi que a decisão já estava acontecendo dentro de mim. Eu valorizava conforto, qualidade de vida e a possibilidade de trabalhar de uma forma que fosse mais coerente com o que fazia sentido para mim. O online me permitia isso.

Eu podia estar mais perto de casa, mais próxima das coisas que considero importantes. Podia trabalhar de forma mais tranquila. Inclusive de um jeito muito simples: atendendo descalça. No presencial, isso poderia parecer estranho — quase inadequado. No online, ninguém vê meus pés. E ninguém se importa com isso.

No fim, percebi que a mudança já vinha acontecendo há algum tempo. Eu apenas precisei reconhecer isso e assumir a decisão. Hoje, o atendimento online é um lugar onde eu me sinto confortável. É um formato em que me encontro profissionalmente.

E percebo também que me tornei uma profissional melhor por causa dessa decisão. Quando estou mais confortável, mais próxima da minha rotina e da minha própria qualidade de vida, consigo estar mais presente no atendimento. Consigo escutar melhor. Pensar melhor. Cuidar melhor.

Às vezes a gente pensa que mudar a forma de trabalhar é apenas uma questão prática. Mas, no meu caso, foi também uma forma de alinhar minha vida com a maneira como eu queria exercer a psicologia. E isso fez diferença — para mim e para as pessoas que eu atendo.

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