Quero escrever sobre sonhos. Mas não sobre sonhos de dormir, aqueles que vêm enquanto o corpo descansa. Quero falar de sonhos acordados.
Quando eu era criança, eu não sabia que podia sonhar. Tudo parecia muito distante, quase impossível. Não porque alguém tivesse me proibido de sonhar — não vejo isso como um erro da minha família —, mas porque o ambiente em que vivíamos não oferecia muitas possibilidades. A vida girava em ciclos muito parecidos. Os dias eram quase sempre iguais. As referências eram limitadas. E, quando tudo ao redor parece não se mover, sonhar vira algo abstrato demais.
Meus “sonhos” infantis vinham das imagens que eu via. Revistas, novelas, filmes. Eu via mulheres vestidas de noiva e pensava: “meu sonho é ser uma mulher de noiva”. Via recepcionistas trabalhando e pensava que esse poderia ser um futuro. Era isso que existia no meu campo de visão.
Ao mesmo tempo, desde muito pequena — por volta dos quatro anos — eu brincava de ensinar. Todos os dias. Com minhas bonecas, um quadro de giz e sempre o mesmo texto: a primeira história de um livro de alfabetização que eu tive, a do Patinho Feio. Eu repetia aquela aula incansavelmente e pensava: “quero ser professora”.
Também sonhei, por muito tempo, com uma família “comercial de margarina”. Pai, mãe, mesa posta. Era o que eu via na TV — e parecia bonito. Mas, no fundo, tudo isso ainda era muito limitado. Não havia uma noção clara de futuro. Não havia um “e depois?”. Era como se a vida fosse acontecer sempre naquele mesmo perímetro.
Eu vim de um interior onde poucas coisas aconteciam. Poucas oportunidades. Poucos caminhos visíveis. Muito diferente do mundo que vejo hoje — na cidade onde moro, na internet, nos infinitos portais que se abriram.
Foi só na adolescência, já no ensino médio, quando se começou a falar de faculdade e escolhas, que algo mudou. Ali, pela primeira vez, eu me permiti pensar: “Talvez eu consiga.”
Foi quando escrevi minha primeira lista de sonhos. Não sonhos grandiosos ou fantasiosos, mas sonhos possíveis: estudar, trabalhar, ajudar minha mãe, construir algo meu. Era a primeira vez que o futuro parecia um pouco mais perto.
E é estranho pensar nisso hoje: eu só comecei a sonhar de verdade quando já era adolescente. Isso faz cerca de dez anos. Dez anos é muito pouco tempo. É quase nada. Antes disso, eu não tinha perspectiva. E sem perspectiva, a vida fica suspensa. Porque os sonhos são aquilo que nos colocam em movimento, que nos dão direção, que fazem sentido do amanhã.
A pior coisa que se pode fazer com alguém é tirar a possibilidade de sonhar. Sem sonho, não há caminho. Sem caminho, não há vida.
Quando comecei a ter perspectiva, algo curioso aconteceu: passei a ter medo de morrer. Era como se eu pensasse: “Agora que comecei algo, agora que estou estudando, trabalhando, construindo, eu não posso perder isso.”
Fiquei rígida. Cuidadosa demais. Assustada. Isso me adoeceu em alguns momentos, é verdade. Mas também foi funcional. Me moveu. Me protegeu. Me levou adiante.
Hoje, sigo ajustando essa rigidez. Aprendendo a viver com mais flexibilidade. Mas reconheço: foi isso que me permitiu sonhar — e realizar.
Os sonhos mudaram ao longo do tempo. E ainda mudam. Mas quando olho para trás e vejo que muitas coisas que eu queria há dez anos hoje são realidade, me dá um sentimento difícil de explicar. Uma mistura de gratidão, espanto e alegria.
Eu conquistei coisas que, naquela época, eu nem sabia que poderia conquistar. E isso me faz pensar: sonhar não é sobre prever o futuro. É sobre abrir espaço para ele existir. E que coisa maravilhosa é perceber que a vida pode ir além do que um dia pareceu possível.