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O homem que cantava na loja

Sobre liberdade, espontaneidade e viver sem pedir licença ao julgamento.

Sobre liberdade, espontaneidade e viver sem pedir licença ao julgamento.

Era um sábado, por volta do meio-dia.

Entrei na loja de chocolate com um plano simples: comprar uma trufa. Daquelas diferentes, só para surpreender meu marido e dividir algo novo depois.

Enquanto eu escolhia, tocava música — como sempre toca. Uma música em inglês.

Foi então que um homem entrou na loja com uma mulher, provavelmente sua companheira. Ela olhava os chocolates, parecia escolher presentes.

E ele… começou a cantar.

Cantava a música em inglês, mas era evidente: ele não sabia inglês. Cantava daquele jeito meio “canto de banheiro”, meio fora do tom, meio inventado — aquele canto que a maioria de nós só se permite quando acha que ninguém está ouvindo.

E o detalhe que mais me chamou atenção: ele não demonstrava nenhuma vergonha.

As pessoas olharam. Algumas disfarçaram. Outras fingiram que nada estava acontecendo.

E ele continuou. Confiante. Presente.

Vivendo aquele momento como se o mundo não estivesse avaliando. E talvez não estivesse — mas a verdade é que a maioria de nós vive como se estivesse sempre sendo.

Eu senti uma admiração imediata. Um pensamento quase automático passou pela minha cabeça: “Que coisa boa isso.”

Não no sentido de performance, nem de talento. Mas de liberdade.

Eu quis parabenizá-lo. Quis dizer algo como: “que bom te ver assim.” Mas, claro, isso poderia soar estranho, constrangedor, deslocado.

Então fiquei ali, em silêncio, apreciando. E pensando:

Que a gente seja mais como esse homem que canta aleatoriamente numa loja. Sem se preocupar se está afinado. Sem se perguntar o tempo todo o que os outros estão pensando. Sem se diminuir antes mesmo de existir.

Ele não estava tentando aparecer. Ele estava apenas vivendo aquele instante.

Talvez seja isso que falte tantas vezes no nosso cotidiano:

  • espaço para existir sem ensaio,
  • sem autocensura,
  • sem pedido de permissão.

Em um mundo que nos treina para conter, ajustar, polir e silenciar, ver alguém simplesmente cantar — errado, improvisado, espontâneo — é quase um ato de resistência.

E eu saí da loja com duas trufas na mão e uma vontade sincera no peito:

Que a gente cante mais.

Mesmo sem saber a letra. Mesmo fora do tom. Mesmo quando não é “lugar pra isso”.